Vale a pena ler.

Vamos falar de solidão?
Acordou por causa de um barulho insistentemente irritante na rua. Olhou no relógio e eram exatamente 2:45 da madrugada. Tateou a mesinha ao lado da cama em busca de um livro. Pegou o primeiro que seus dedos alcançaram. Ligou o abajur. Colocou o óculos. Leu.
Leu até a página 98 do livro: Insônia de um vampiro. Achou bom. Pensou que era sorte não ser um vampiro bebê e não ter vivido em Portugual no século XVII. Revirou os olhos pelo pensamento bobo e pôs-se a pensar sobre o que iria fazer.
Decidiu levantar e passar um café. Colocou o habitual cigarro no canto da boca e foi para a cozinha. Ajeitou a cafeteira e esperou. Nesse meio tempo ela já tinha fumado 3 cigarros. Todos sem intervalo algum. Sabia que podia ter uma tosse e uma crise logo em seguida, mas isso realmente não a preocupava. Nada mais a preocupava.
Quando o café ficou pronto colocou-o em uma xícara e pôs-se a tomar e fumar, intercalando. Sentou em sua cama e não pensava em nada exato. Olhava um ponto fixo na parede. Milhares de idéias, lembranças vinham a sua mente. Eram 4 horas da manhã . Foi quando a música invadiu o cômodo e, consequentemente, seus pensamentos.

Quando você não esperar, vai doer.
E eu sei como vai doer.
E vai passar, como passou por mim,
e fazer com que se sinta assim.
Como eu sinto, como eu vejo, como eu vivo, como eu não canso de tentar.
Eu sei que vai ouvir, eu sei que vai lembrar,
e vai rezar pra esquecer, vai pedir pra esquecer.
Mas eu não vou deixar.


Era a voz que ela mais adorava ouvir. Depois da DELE. Olhou no celular e não se surpreendeu quando viu o nome DELE na tela. Sim, ele também tinha insônia. Ele também vivia esse inferno. Ele era igual ela.
Alguns meses atrás, quando os dois estavam juntos, eles costumavam sair de suas casas, na madrugada e fazer nada juntos. Apenas gostavam da companhia do outro e ficavam na rua até verem indivíduos indo trabalhar, já de manhã.

Atendeu o celular com uma esperança no peito. Fazia quanto tempo? Ah sim, 5 meses que ele se fora. Que ele quebrara seu coração, sem jeito de reparos. Lembrou-se de como ele a fazia feliz. Mas um segundo depois, quando atendeu o telefone, foi com frieza. Por tudo que ele tinha feito:
- O que você quer?
- Você sabe bem o que eu quero.
- Se eu soubesse eu seria adivinha. Se eu fosse adivinha estaria apostando na mega-sena e ganhando.
- Você.
- Eu o que?
Nesse momento, ele riu. Do outro lado da linha.
- Eu quero você.
- Sabe que isso não é mais possível, a muito tempo.
- Eu sei, mas eu estou aqui, me rendendo a você. Querendo que você volte. Pedindo para você voltar. Eu a quero. Só demorei a entender isso.
- Pois demorou tempo demais. De que adianta agora, os cacos não vão ser colados! O muro desabou.
E ele sabia exatamente do que ela falava.
- Podemos reconstruí-lo de novo.
- Não é tão simples assim. Robert não me peça para voltar. Você me abandonou uma vez, quando eu mais precisava. Isso não muda tão fácil assim.
- Lembra-se como fomos felizes? Lembra quantas promessas fizemos? Quantas juras? Eu não as esqueci.
- Pois eu já. Assim como eu fiz com você.
- Não me diga essas coisas horríveis.
- Pois você que as fez, bem antes de mim. Você que me abandonou primeiro, não queira inverter a situação. Não se faça de bonzinho, que é a última coisa que você é.
- Eu mudei, pena que você não acredita.
- Realmente, e se algum dia eu for acreditar não devo estar lúcida.
Ele cantou, baixo:
- E tudo que eu posso oferecer, são minhas palavras a você . Num plágio de uma bela melodia. E tudo que eu quero te dizer, eu já cansei de escrever. Quero te ver enquanto não é dia.
Ela chorou do outro lado da linha. Era a música deles. Ele era um idiota por cantá-la. Não devia. NÃO PODIA. Depois de tudo...
- Lembra? É a nossa música. Aquela que a gente cantou por inúmeras vezes enquanto estávamos juntos. Aquela que diz tudo o que eu sinto. Sabe, eu realmente escrevi cartas para ti, nesses cinco meses. Escrevi 32 cartas. Tenho medo de entregá-las. Tenho medo de que tu ria, e ache idiota. A questão é: passei cinco meses inteiro te querendo. Cinco meses tentando encontrar a solução que fizesse você voltar. Que fizesse te ter de volta para mim.
- Eu já falei que é tarde para me querer. É tarde para essas coisas. Quando você perde uma pessoa, vê o quão importante ela é para você. Você segue esse ditado. Eu seguia apenas meu coração. Somos tão iguais que no fundo chegamos a ser diferentes. Não me ligue mais. Por favor.
E ela desligou o telefone. Lágrimas rolavam por toda sua face. Ela chorava e sentia um aperto horrível em seu peito. O menino que ela amava. O menino que ela sempre irá amar. Porque não há ninguém nesse mundo como ele. Não há ninguém que possa realmente preencher o lugar de. Ele se foi. Foi como o outono, que leva as folhas boas de uma árvore. Ele era uma boa lembrança, mas voltar com todas elas ao mesmo tempo foi um turbilhão de pensamentos, foi uma loucura. Ela sentia um vazio. Uma falta de. Uma dor horrível.
Ela sabia o que fazer quando sentia isso.
Foi até a cozinha e pegou uma faca. Dirigiu-se ao cômodo que estava anteriormente e viu que seu celular chamava.
Olhou a tela, era uma mensagem:
Porque por você eu morreria.
Porque sem você, eu morreria.
Eu sei o que você vai fazer.
Eu também vou.
Te amo.
Sim, havia sido ele. Afinal, depois de tanto tempo ele ainda lembrava de coisas que fazia. De como se cortavam para esquecer a dor.
Pegou a faca e passou em seu pulso esquerdo. A dor dentro do peito agora era menor. Conseguia fazê-la parar. Conseguia sentir outro tipo de dor que não fosse dentro de seu peito. Com muita dificuldade, cortou o pulso direito. Sangue escorria de seus dois braços e ela sorria e chorava ao mesmo tempo. Sorria por estar se libertando. Chorava por ter perdido o homem da sua vida.
E a dor em seu peito já nem era tão dilacerante como outrora. Ela já não mais se preocupava com isso. Deitou em sua cama e lá ficou, dormindo até o amanhecer. O amanhecer para outras pessoas. Ela não acordou.

Porque você insiste em dizer que ainda existe vida sem você?